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04
Abr
08

Rato de Locadora #7 – Cinema Nacional

- por Juarez Junior

Vamos falar do bom e velho cinema nacional. Filmes repletos de palavrões, nudez, sexo, violência, estilo, inteligência e uma técnica de improviso genuína. O cinema brasileiro que o povo gosta é esse, e não aquela variações de novelas globais. Assim, aqui vão cinco indicações de clássicos (acessíveis) de uma época que deixou saudades:

- Dama da Lotação: Sonia Braga no auge de sua beleza, comandada pelo nada púdico Neville de Almeida. O resultado não poderia ter sido melhor. Momento Inesquecível: O motorista Roberto Bonfim dá uma desculpa pra Ivan Setta checar o pneu do ônibus. A intenção é desfrutar sozinho de toda sensualidade da bela morena. Sacanagem, Bacalhau!

- Bonitinha, mas Ordinária: Um clássico baseado nos escritos de Nelson Rodrigues. Perversão em doses nada homeopáticas. Momento Inesquecível: Não tem jeito, o prêmio vai para Lucélia Santos e o nosso parceiro Cadelão.

- Eu Te Amo: Filme inteligente dirigido por um inspirado Arnaldo Jabor e com música de Chico Buarque. Ah, desculpe, o protagonista é um tal de Paulo César Pereio. Momento Inesquecível: A boquinha suja de Sônia Braga mandando o juiz (vizinho de seu amante-cliente) ir procurar sua turma.

- Os Sete Gatinhos: Família nada convencional explicita a sordidez e hipocrisia da nossa sociedade. Nelson Rodrigues adaptado por Neville de Almeida. É melhor parar por aqui. Momento Inesquecível: Ana Maria Magalhães com Antônio Fagundes ao som de Cavalgada. Tem também Regina Casé na piscina mandando o “Não vai me comer” pra Maurício do Valle.

- Amor Bandido: Este é um dos meus favoritos. Ladrão mata taxistas no Rio de Janeiro e é perseguido por policial de métodos nada ortodoxos. O caso amoroso é com a bela prostituta interpretada por Cristina Aché. Sob a batuta de Bruno Barreto. Momento Inesquecível: A nossa querida garota de programa suspirando pelo rei Roberto Carlos no cinema.

Como dica de cinema, Maré, Nossa História de Amor que estréia no dia 4 de abril no circuito Rio-São Paulo. Trata-se de cinema novo brasileiro – feito por aqueles que olham pra frente sem ignorar o que foi feito no passado.

15
Mar
08

Rato de Locadora #6 – Stephen King

- por Juarez Junior

Esta semana, vou atender ao pedido de Boom, que pediu uma explicação pelo fato de eu ter feito uma crítica negativa a Stephen King no texto da semana pessada. Acho que ter postado “as besteiras escritas por King” foi mesmo um pouco forte de mais. Mesmo assim, tentarei me explicar; gosto de vários filmes baseados nas obras dele, mas a minha implicação vem do fato de que a “prosa” dele é fraquinha de mais, os textos são paupérrimos quando o papo é literatura.

Ao meu ver, isso se deve ao caráter prolífico do autor. Produz demais, mas no caso dele a qualidade sempre foi prejudicada pela quantidade. Na verdade, um oportunista que pegou um tema tão recorrente na literatura contemporânea – o terror – e descobriu uma mina de ouro. Não há como questionar a criatividade em criar universos e personagens, mas o aspecto comercial fala sempre mais forte. Romances feitos sob encomenda viram uma espécie de histórias em quadrinhos – a  profusão de tantos heróis e vilões não surgem se não pelo simples fato de que todo mês (quinzena, ou semana) você deve ter necessariamente um novo gibi na praça. E como Stephen King age como um gibizeiro de quinta categoria … E olha que não falo das edições traduzidas, pois li uns contos do cara em inglês e a coisa passou longe da boa literatura. Caramba, não sou tão chato e não escrevo nada pra bancar o crítico literário. Assim, como forma de redenção ao meu amigo Boom, vamos aos bons exemplos do cinema baseado em King:

Carrie, A Estranha – Filmaço intimista que é muito mais do que uma fábula cruel sobre o fenômeno do bullying.

Cemitério Maldito – Triste, violenta e estilosa, a história do pai desesperado com o filho morto. Quem consegue esquecer a navalhada no calcanhar?

Christine – Vide a coluna anterior.

Colheita Maldita – O autor adora macular a pureza das crianças, e aqui a maldade infantil hegou ao seu ápice.

Cujo – Fábula sobre a perigosa relação entre um adorável São Bernardo e sua dona. A cena do ataque ao carro é antologia oitentista.

A Hora da Zona Morta – Walken constrói um personagem marcante sob a batuta de Cronenberg.

O Iluminado - Uma família em um hotel vazio no rigoroso inverno do Colorado. Uma história de loucura e medo nas mãos do Mestre Kubrick. 

08
Mar
08

Rato de Locadora #5 – Doce Ridículo

- por Juarez Junior

John Carpenter é o CARA no cinema B norte-americano. Ele não tinha medo de se aventurar por terrenos inóspitos e vingar projetos de pretensão infantil na tela. Projetos estes deliciosamente ingênuos que pareciam saídos da cabeça de uma criança inteligente. Com homenagens a filmes antigos ou criando conceitos em trama absurdas, John Carpenter deu as cartas no criativo cinema americano de baixo orçamento no dinal da década de 70. E não diga que não se importa com isso – pois aonde você acha que os grandes estúdios foram buscar gente como Peter Jackson (este na Nova Zelândia) e Sam Raimi? É, se o mundo se curva diante dos realizadores de Homem-Aranha e da saga do Queima-Anel, deve muito à influência deste talentoso cineasta nascido em Nova York em 1948, criado em Kentucky e ganhador do Oscar de curta de animação em 1971, com um desenho-faroeste, The Ressurection of Broncho Billy.

Acho que já elogiamos demais, então vamos a algumas pérolas que não podem passar despercebidas:

- Assalto a 13° DP – Filme fortíssimo e politicamente incorreto. Bagaceira pura.

- Fuga de Nova York – O início da saga do escrotaçõ Snake é imperdível.

- O Enigma do Outro Mundo – Alguém consegue se esquecer da cabeça que vira aranha?

- Halloween - Carpenter criou um conceito e também compôs a música, que virou sinônimo de filmes de suspense.

- Christine – Até mesmo as besteiras escritas por Stephen King ficam charmosas nas mãos de Carpenter.

- Eles Vivem – Uma verdadeira agulhada política. Impossível esquecer os óculos que identificam os poderosos alienígenas.

O cara escorregou em filmes como Vampiros, mas mesmo assim continua uma criança à frente do seu tempo.

01
Mar
08

Rato de Locadora #4 – Muito Barulho por Nada

- por Juarez Junior

Estava pensando em escrever mal do Oscar, mas esta edição de 2008, apesar de como evento ter deixado muito a desejar, premiou filmes relevantes e que vão em uma linha mais autoral, justamente na contramão da linha industrial. Onde os Fracos Não Têm Vez foi definitivamente uma bola dentro e não simplesmente uma forçada de barra com a premiação de um filme menor de um grande realizador.

Pois bem, na linha das injustiças vale citar Al Pacino, que apesar de ser o Poderoso Chefão definitivo, ganhou o prêmio por um filmeco em que faz a caricatura de uma pessoa cega – regra seguida po Denzel Washington (acho Dia de Treinamento muito legal, mas Denzel já fez The Hurricane e Malcom X). Os Infiltrados é legalzinho, mas Scorsese é melhor que aquilo. E os americanos ADORAM idolatrar Cidadão Kane, no entanto o filme só ganhou o Oscar de Roteiro (na verdade, o Oscar da compensação, vide recentemente Juno e Sideways – Entre Umas e Outras). Sem falar nos filmes que papam duzentas estatuetas, como por exemplo Ben-Hur, O Retorno do Rei, Dança com Lobos, Shakespeare Apaixonado (este é bomba!), Coração Valente e Titanic. Não que sejam filmes ruins, apenas não são tão bons assim. Pior que isso é premiar Russel Crowe, Juli Roberts e Gwyneth Paltrow pelo sucesso comercial, quando estes ainda estavam em fase de amadurecimento como profissionais. Ou o trabalho da turma em Gladiador, Erin Brockovich e Shakespeare Apaixonado, respectivamente, foram exemplos de interpretação? Definitivamente não.

É por essas e outras que a galera que busca alternativas sadias ao cinema americano despreza tanto o Oscar; ninguém mais aguenta ver filmes de guerra com bandeiras americanas, nazistas malvados e crianças judias. E para não dizerem que não falei das flores, vale citar os estrangeiros no Oscar deste ano, o reconhecimento de O Poderoso Chefão e a polêmica de dar notoriedade a filmes como O Franco Atirador, Platoon e O Silêncio dos Inocentes. Ah, ia me esquecendo de Marlon Brandon ridicularizando o prêmio.

Na próxima coluna: O legado de John Carpenter.

24
Fev
08

Rato de Locadora #3 – Sangue, nudez e diversão

- por Juarez Junior

Ao ver o documentário Going to Pieces que trata dos slashers americanos da década de 80 pude fazer um rápido balanço de quanto tempo passei me divertindo na frente da TV com este cinema de qualidade tão duvidosa. Definitivamente os slashers são meu guilty pleasure. Com a bagagem de um aficionado, vamos as três séries que definiram o gênero: Halloween, Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

HalloweenJohn Carpenter reinventou o giallo e o transformou em slasher com o final da série, até hoje um clássico absoluto. As repetições que vieraram a posteriori afundaram e ridicularizaram Michael Myers. Mas o estrago já estava feito. Melhor Morte: O rapaz que tem seu sangue praticamente todo drenado em Halloween II.

Sexta-Feira 13 – Jason foi meu herói de infância. E sempre gostei da senhora Voorhees também. Entretanto, as continuações aqui foram além do bom senso. Meu Deus, o que é aquele Jason vai para o Inferno? Melhor Morte: Jason simplesmente parte ao meio com seu facão um rapaz que planta bananeira em Sexta-Feira 13 – Parte 3. Violência do jeito que o povo gosta.

A Hora do Pesadelo – Freddy sempre foi mais sofisticado, além do original ter reinventado as bases do gênero. Como não achar mais abrigo nos próprios sonhos? Um terror inigualável. Apesar da irregularidade das seqüências, no conjunto da obra ainda se sobressai. Melhor Morte: A primeira da série, com a garota sendo cortada por Freddy, e depois voando no quarto, com o namorado apavorado ao lado.

É importante lembrar que todos esses filmes valem pelo extravagante visual oitentista. Como indicação ficam o maravilhoso The Burning (Vingança de Cropsy ou Chamas da Morte) em que um maluco com uma tesoura de poda na mão apronta e muito em um acampamento cheio de infanto-adolescentes, e Feliz Aniversário Para Mim, com umas das mortes mais fodonas da nossa época – aquela da moto ligada. Este último tem um final horrível, quase tão ruim quanto o de Acampamento Sinistro. Quem viu sabe do que eu estou falando.

Na próxima coluna: Oscar é sinônimo de qualidade?

14
Fev
08

Rato de Locadora #2 – Rolling Stones

- por Juarez Junior

Com o alvoroço causado pelo esperado documentário Shine a Light em Cannes … Para quem ainda não sabe, trata-se do retrato de um show dos Rolling Stones nas mãos talentosas de ninguém mais, ninguém menos, do que Martin Scorsese e uma turma de talentosos cinegrafistas. Aliás, quem acompanha o trabalho do diretor sabe que o cara tem um carinho especial pelo bom e velho Rock’n Roll. Assim, os Stones são praticamente referência obrigatória em seus filmes.

Rolling StonesPois bem, o caminho dos Stones no campo da atuação é um pouco controverso. Com exceção de Performance, em que Mick Jagges interpreta a si mesmo (digamos assim), pouca coisa se aproveita. Ned Kelly, por exemplo, é o pior faroeste que já acompanhei. Já Richards fez aquela ponta na terceira parte de Piratas do Caribe para dar uma moral para Johnny Depp, que já cantou aos quatro ventos que se inspirou nele para compor Jack Sparrow. Mas o pior fica com a tentativa de se romancear a trajetória da banda como obra de ficção, pouca coisa se salva. O que foi aquele suspense horroroso chamado Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones? Filmeco feito para a TV com versão mais forçada da morte prematura de Brian Jones. Talvez quando falamos de Godard e seu Sympathy for the Devil a coisa mude um pouco de figura. Ouve-se umas quarenta vezes o início da mesma música, mas não conseguimos ficar saturados – os depoimentos da juventude sessentista são muito bem encaixados. O erudito e o pop em um namoro que deu certo.

No campo de documentários e shows a coisa melhora um pouco. Como exemplos, o excelente Gimme Shelter (trabalho sobre aquele famoso show em Altamont, San Francisco, no qual os Hells Angels mataram um espectador no meio da multidão), o chato CockSucker Blues (tentando mostrar a falta de limites durante uma turnê nos EUA, no início dos anos 1970 – quem mais se destaca é o saxofonista Bobby Keys) e Stones in The Park (o show no Hyde Park depois da morte de Brian Jones em edição para a televisão – bonito o momento do poema de Mary Shelley lido por Jagger, seguido pela chuva de borboletas brancas). Agora resta ficar na expectativa para ver o que Scorsese vai aprontar.

Momento Marcante: Fica a dica de Performance, no qual um gângster, interpretado com brilhantismo por Jamie Foxx se vê confrontado ao se esconder no apartamento do amalucado Turner (Jagger). O filme é de 1969 e talvez junto de Blow Up de Antonioni seja o grande retrato da Swinging London. Vale pela cena em que Anita Pallenberg, no auge da beleza, aplica uma dose de B12 no bumbum. É, garoto. It’s Only Rock N’Roll but I like it.

Na próxima coluna, um retrato apaixonado dos slashers movies. 

08
Fev
08

Rato de Locadora #1 – 1971

- por Juarez Junior

Nesta primeira coluna vamos ao número 1 da década mais controversa do cinema. Assim, a primeira indicação vai para um clássico policial setentista com todos os ingredientes do gênero. O filme em questão é o bom Klute – O Passado Condena com direção de Alan J. Pakula e Jane Fonda liderando o elenco no papel da confusa prostituta Bree. Detetive particular resolve investigar o caso do desaparecimento de um figurão acima de qualquer suspeita. John Klute (Donald Sutherland) está muito bem como o detetive caipirão que confronta e se vê confrontado pela luxúria da cidade grande. Nova Iorque nos anos 1970 é sempre um deslumbre, Roy Scheider como o gigolô picareta que controla a descolada prostituta -impossível não lembrar do personagem de James Woods em Cassino - e outros fatores setentistas fazem Klute valer a pena. Momento Marcante: diálogo afiado no qual Bree confronta o detetive sobre o deslumbramento exercido pela cidade grande. A resposta dele é de fazer Clark Gable sorrir no túmulo.

Ainda em 1971, temos Vampiros Lesbos, talvez o grande filme de titio Jess Franco. Vale a penas não apenas pela beleza sem ressalvas de Soledad Miranda – Meu Deus, é uma coisa de louco – mas pelo climinha kitsch que perpassa toda a saga. A trama, amarrada com a frouxidão de um artesão, funciona como mera desculpa para a profusão de cenas lisérgicas e eróticas. O resultado é pra lá de animador. Filme para iniciados que não vão se importar com o fake da violência. Momento Marcante: a intimidade entre Soledad e outra famosa jessiana, Ewa Strömberg, em uma bela casa de praia.

Na próxima coluna, Rolling Stones e Cinema – uma mistura cheia de altos e baixos.